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Cinco regras de sobrevivência em autocarros urbanos

Cinco regras de sobrevivência em autocarros urbanos.

 

“A man who, beyond the age of 26, finds himself on a bus can count himself as a failure.” Margaret Thatcher (citação apócrifa).

 

 

Muitos de nós andam de autocarro porque não têm alternativa. Outros andam de autocarro porque é a melhor alternativa. Outros ainda escolhem o autocarro apesar das alternativas. Para mim, os 26 anos já lá vão há mais tempo do que gostaria, e (ainda?) não deixei de andar de autocarro. São longos anos de experiência nacional e internacional em matéria de transportes públicos rodoviários que decidi agora partilhar neste mini-manual de sobrevivência. Porque falhados ou não – provavelmente a Dama de Ferro nunca terá proferido a citação que lhe é atribuída em epígrafe, mas si non è vero è bene trovato - temos o direito de fazer dos minutos (horas?) que diariamente passamos nos transportes públicos  momentos um pouco mais suportáveis das nossas vidas.

 

Regra nº 1: Lave-se.

O asseio é importante. Nos transportes públicos, porém, torna-se essencial. Não é preciso explicar porquê, pois não? É verdade que a observação desta regra não respeita à sobrevivência pessoal. E relembrá-la a tão ilustres leitores poderá parecer desnecessário. Mas a importância da prática generalizada do banhinho sobreleva de tal forma a tudo o resto na agradabilidade da vivência do autocarro que não ficaria bem começar este manual sem lhe fazer referência.

 

Regra nº 2: Sente-se.

Onde a observância da regra nº 1 é essencialmente altruísta, a observância da regra nº 2 é basicamente egoísta. Mas isto, afinal, é um manual de sobrevivência. E sentar-se é a melhor maneira de sobreviver num autocarro. Quando se está sentado, beneficia-se de um espaço vital relativamente bem definido, onde não entram cotovelos nem abundam as pisadelas. Está-se também mais protegido dos efeitos indesejáveis das travagens bruscas. E cansa menos. Por isso, sente-se. Sempre.

 

Corolário  nº 1: Faça o que tem a fazer para se sentar.

A aplicação deste corolário pode ser mais ou menos complicada segundo as circunstâncias. Se o autocarro for vazio, simplesmente sente-se. Se o autocarro estiver cheio e não se puder sentar de imediato, siga a seguinte estratégia:

  1. Afaste-se o mais possível da entrada e dos lugares marcados como reservados para grávidas, acompanhantes de crianças de colo e pessoas idosas (assumindo que não encaixa nessas categorias). Estas são as zonas onde terá mais probabilidade de ter que ceder um lugar que se liberte a uma pessoa mais debilitada que você próprio.
  2. Não se deixe ficar nas zonas de passagem do autocarro, onde se acumulam incautos que farão toda a viagem de pé. Não: aproxime-se dos lugares sentados.
  3. Seja determinado: se quiser um lugar sentado num autocarro cheio, tem que o namorar primeiro – terão reconhecido aqui uma pertinente adaptação da imorredoira frase de Ribau Esteves sobre as gajas boas como o milho. Toda a sua linguagem corporal tem de indicar aos restantes passageiros que aquele lugar é seu por direito divino antes mesmo de o seu transitório ocupante actual se levantar.
  4. Seja flexível. Desenvolva a visão periférica. Faça estiramentos em casa. Porque se vagar outro assento antes do escolhido, poderá vir a necessitar desse treino para o ocupar.

 

Regra nº 3: Não se meta em confusões.

Confusões estragam a experiência do transporte público. Evite-as. Como fazer para evitar confusões num autocarro? Os três preceitos fundamentais são:

  1. Não crie confusões. Headphones que se ouvem a milhas? Um perfume muito forte? Passar à frente da velhinha na fila para entrar no autocarro? Atropelar o senhor do lado para lhe ficar com o lugar? Isso pode trazer dissabores.
  2. Evite confusões. Nem todos os utentes de transportes públicos estarão tão bem treinados como os leitores deste artigo. Por isso, tente ignorar aquelas coisas que o irritam, como a cotovelada, a pisadela, a chico-espertice de quem lhe passou à frente. Encare tudo isso com a fleuma de quem paira acima desta realidade. Claro que não paira: está metido nela até ao pescoço. Mas sonhar não faz mal, e evita confusões.
  3. Não se meta em confusões alheias. Uma velhota racista? Um rapazote mal educado? Um senhor de meia-idade a invectivar o motorista? Claro que é consigo, afinal tudo o nada do que é humano lhe é alheio. Mas a sua paragem está quase a chegar. Ponha os headphones um pouco mais alto (mas não muito) e aprecie a paisagem.

 

Excepção nº 1: Se alguém estiver a ser assaltado ou fisicamente molestado, intervenha.

Trata-se de uma excepção perfeitamente ao arrepio do bom senso. Em geral, as pessoas intrometem-se em confusões inofensivas, mas encolhem-se quando é a doer. Proponho-lhe que faça o contrário. Desde logo porque as confusões a doer acontecem mais raramente que as inofensivas. Mas também porque a sua vida não estará em risco: quanto muito poderá merecer uns dias de baixa se defrontar uma besta particularmente agressiva. A razão principal para intervir, porém, é porque se sentirá melhor consigo próprio. Além de que poderá fazer render a narração do seu heroísmo anos a fio sem que ninguém tenha a coragem de o mandar calar. Afinal, foi você que salvou a turista incauta de três larápios mal encarados ou não foi?

 

Regra nº 4. Aprecie a viagem.

Já reparou como a cidade à sua volta é bonita? Ah, milhares de vezes? Está bem: e já reparou como as pessoas no autocarro são interessantes? já reparou nas suas roupas, nas suas poses, nas suas vidas sussurradas (ou nem tanto) ao telemóvel? Vá fazendo uma galeria das personagens a quem nunca falou e provavelmente nunca falará, mas que fazem parte da sua vida. Vai ver que é divertido. E se alguma vez se fartar, pode sempre recorrer aos livros do Michael Crichton. E aos headphones. Mas não os ponha muito alto (regra nº 3).

 

Regra nº 5. Saia na sua paragem.

As viagens de autocarro na cidade são assim: acabam à pressa numa paragem qualquer. Esta crónica também.

Crónica por: Vasco Campilho

15-01-2010